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:: quinta-feira, novembro 04, 2004 :: A Louca estava em diálogo com o próprio estômago. Ele pedia comida, ela lhe dizia que a hora não havia chegado, o almoço já tinha passado e não estava escuro o suficiente para se dizer hora de jantar. O estômago fez uma preleção bastante lógica sobre a dependência de conceitos aprendidos desde a infância e sobre como eles interferem na nossa real liberdade, e o quanto a vida perdia de essência quando o dever sobrepõe-se ao querer e que ela iria morrer se não comesse alguma coisa logo mas ela disse que não iria morrer, porque esse não era o dia de sua morte. O estômago então pensou ruidosamente e disse que cozinhasse algo enquanto ele decidia o que fazer. A Louca foi ao fogão, colocou água dentro de uma panela, sal, batatas com casca porque ela era louca e velha e não tinha mais nenhuma razão na vida para descascar as batatas, pegou a colher de pau que nunca lavava e mexeu. Mexeu para a direita, depois para a esquerda, depois para a direita e depois para a esquerda, até perceber que aquela panela era como um relógio e se ela continuasse a mexer para a direta e depois para a esquerda, para a direita e depois para a esquerda, ela continuaria para sempre a voltar as horas que vivia, uma por uma, uma para a direita, depois de volta ao começo, à esquerda.
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