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:: sexta-feira, fevereiro 28, 2003 ::






bom dia.

:: Charlotte Sometimes 5:36 a.m. [+] ::
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:: terça-feira, fevereiro 25, 2003 ::

esse texto aí de baixo não tem revisão porque não consigo relê-lo. é triste.


:: Charlotte Sometimes 5:38 a.m. [+] ::
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MINHA VÓ

Minha vó nunca ficou velha. Ela simplesmente foi crescendo, crescendo e nunca mais parou de crescer. Quando estava perto da época de morrer, ela era uma saturação de tão crescida, a mais intensa expressão de maturidade, de falta de inocência que já vi. Acho que isso é um tipo de cansaço.

Minha vó nunca ficou velha, apesar de ter vivido 85 anos. Tambem teve rugas, cabelos brancos, flacidez dos músculos, osteoporose, surdez, falta de sono, apetite moderado, acúmulo de gordura, catarata e vários outros detalhes que o tempo nos reserva. Ela também morreu da idade, de coração acabado mesmo, bateu até o finzinhozinho da sua vida útil. Isso tudo ela teve, essa velhice. Mas a velhice da poesia, a volta à infância, a perda das amarras e um obscurecimento da linha da realidade – embora questionável esse conceito de caduquice, sabe-se lá se não é de propósito, um dia a gente acorda e percebe que a sanidade não é importante – bom, voltando, isso da velhice da poesia ela não teve muito.

Eu sei que todo mundo a entendia, todos os meus tios e primos a entendiam, mas eu me sentia particularizada. Não era dela, me particularizar, era dela particularizar a todos. Ela tinha o dom de fazer com que todo mundo que falasse com ela sentisse uma cumplicidade imediata, uma comunicação especial, e você achava que era a única pessoa no mundo que a compreendia na maior abrangência possível. Até quando eu percebia que era a mágica dela nos fazer sentir assim. Minha vó falava com todo mundo usando seus sotaques. Minha vó ouvia com paz todo mundo. Minha vó sempre tinha algo seguro e sereno a dizer.

Quando eu era criança não percebia que ela estava ficando velha. Eu achava que ela o era, porque vós tendem a ser velhas. Mas pra mim, a minha não era uma vó comum. Seu cabelo era liso e diferente, ela era magra, ela tinha o olhar sério, doce mas sério, feliz, mas sem inocência. Ela nunca foi inocente enquanto eu existi com ela.

Achava que ela existia só pra mim e meus primos. Levei tempo para pensar que ela podia ter tido uma profissão. Ela era simplesmente vó e com a maior vocação, comandava a empregada, cozinhava junto pra garantir que a comida ia ficar do jeito que a gente sabia comer, costurava, observava a gente, ralhava quando trocávamos as coisas de lugar, ralhava por cumprimento de papel, porque ela gostava, se divertia, ela gostava.

Minha vó foi educadora sanitária, uma mistura de professora com enfermeira, que andava pelo interior do Rio Grande do Sul, fora das cidades, ensinando métodos de higiene, saúde, cuidados sanitários, essas coisas. Não consigo imaginá-la de outra forma, a não ser educando. Ela tinha uma bondade consciente, racional e educativa. Não o desmedido amor dos religiosos, não a bondade derramada das beatas, era apenas uma dedicação que sabia por que existia, era genuína e era boa.

Quando começavam as férias de verão, eu, meu irmão e meus primos íamos com a vó e com o vô para são Francisco de Paula, cidade pequena na serra gaúcha, perto de Gramado. Tínhamos uma casa lá. Nossos pais ficavam em Porto Alegre, trabalhando, e iam pra lá ficar conosco nas quartas-feiras ä noite e nos fins de semana. Nos outros dias, minha vó ficava chamando netos na varanda, soprando arranhões feitos no meio do mato, consertava tombos de bicicleta, implorava por banhos, aceitava com resignação os riscos corridos no alto das arvores, assistia não sei com que paz quando caçávamos cobras, nos limpava, vestia, alimentava e ia ver TV. Então nós, crianças lideradas por mim, mais velha, ensaiávmos pequenas peças de teatro e encenávamos pra os dois, rapidamente, entre o Jornal Nacional e a novela.

Essa felicidade de infância no campo acabou num dia que eu estava lá mesmo, e vieram avisar que o vô havia morrido. Eu tinha uns 12 anos, de qualquer forma a infância tinha que acabar mesmo. Do meu avô guardo as lembranças mais doces, felizes como uma foto que tenho dele. Eu, ele e meu primo Gabriel, despenteados pelo vento, em cima de uma locomotiva. Felizes. Meu avô era uma criança, como nós. Minha vó cuidava dele com uma dedicação vinda da própria existência. Todos os dias, após o almoço, a xícara de café, na poltrona da sala, quase uma função vital, orgânica. Quando ele morreu, ouvi minha Vó dizer, chorando muito, sem nem saber se estava arrependida, que tinha até pedido que ele se fosse antes dela, porque senão ele não saberia nem quanto açúcar deveria colocar no próprio café.

Quando ele morreu, minha vó ficou profundamente triste. Mas nunca desamparada, nunca vi desamparo em minha vó. Mesmo assim, nos revezávamos para passar tardes e noites com ela, em sua casa. Eu, que morava a apenas um quarteirão de distância, acabei com o hábito de passar tardes por lá fazendo nada, lendo Monteiro Lobato, depois o Tempo e o Vento, até mesmo a Enciclopédia Barsa.

Depois de adulta, nada foi mais emocionante do ver minha vó na Europa, em Portugal, e eu perco totalmente as forças de lembrar dela agradecendo sem nem saber a quem, a tudo e a todos ao mesmo tempo, a mim por viver lá, ao meu pai por levá-la, à minha mãe, a todos por realizarem o sonho da sua única viagem internacional.

Existem muitos momentos doces na minha história com minha vó. Existem alguns marcantes, daqueles que você sabe que são tijolos da personalidade. Mas esses eu não vou contar porque são apenas meus e dela, são apenas eu e ela.

Um dia, num fim de semana desses, eu lembrei dela. Senti ela perto. Lembrei que tamanha falta de inocência só podia dar medo. E senti o medo dela. A cidade inteira andava embriagada pela rua comemorando a conquista de uma Copa do Mundo, e eu fui procurar a direção contrária, a paz, porque eu sentia o medo dela, eu via o medo dela, eu observava chocada a existência de um medo tão grande, e sempre crescendo, uma sombra se estendendo, chegando e se abraçando.

No outro dia quando tocou o telefonei nem precisaria atender pra saber a notícia que chegava. Mais uma vez ela me fez aquela mágica, me senti a única a compreender tudo.

Minha vó sempre quis que eu fosse escritora.



:: Charlotte Sometimes 5:38 a.m. [+] ::
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:: sexta-feira, fevereiro 14, 2003 ::

JANAÍNA DO CANGAÇO

O calor de Viamão levantava pó do asfalto rachado na frente da igreja. Quer coisa mais árida do que comércio de centro? Não, aquilo era um tipo de cangaço.

E de lá vinha arrastando sandálias de couro, mochilas e uma desconfiança nos olhos – que eram sempre assustados, mas agora estavam duvidando de algo – lá vinha Janaína, amarrada em uns pertences e desamarrada de todo resto.

Resolveu uma nordestina que lhe tinha que virar a cabeça, revirar os olhos.

Desde que entrara na internet e teclou com ela, mesmo apleidada Elis Regina, decidiu que seria cactus. Não pelos espinhos, mas pelo poder de não depender de nada, que o suco vem de dentro mesmo. O cactus pode mudar tudo à sua volta. O cactus se fabrica.

Sabendo disso é que saiu pelo mundo, de Floripa à serra ao nordeste. Não por uma mulher, mas pela viagem.

(Os cangaceiros não precisam de motivo para andar pela caatinga cheia de pó vermelho. Só não querem passar a vida inteira enterrando as raízes cada vez mais fundo no mesmo lugar. Eles não têm medo de nada, pq sabem que nunca, nem no mais distante dos países, nem no mais desconhecido dos planaltos, nem quando o pó do chão desbota, eles nunca vão se perder. Eles não têm pra onde voltar, e então só andam pra frente.)



:: Charlotte Sometimes 11:59 a.m. [+] ::
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um dia, ano passado, eu tinha isso tatuado por baixo da pele por causa de uma ruiva louca cheia de margaridas no cabelo que eu vi passando na rua:

“aquela camada de ar quente que envolve os olhos de choro de uma mulher que eu não conheço, mas amo, e lambo os olhos dela”




:: Charlotte Sometimes 11:57 a.m. [+] ::
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AS SILENCIOSAS DO ITACORUBI

Elas enchiam a boca de banana pra não falar nem com o carteiro que deixava telegrama.

Elas não queriam se comunicar.

Elas queriam a casa vazia pra encher de porta-retratos, de bichos de amores de estimação, de porta-velas e do próprio cheiro. Em silêncio, pra não assustar o cheiro. Em silêncio, pra não se assustar.

Quando acabava a banana, elas enchiam a boca de língua mesmo, que era pra não conseguir descolar do céu da boca e continuar com a cabeça nas estrelas. Era sempre melhor e mais fresco se fosse noite, e costuma ser nessa hora mesmo que as pessoas sonham. Tinha um sonho sentado na boca delas.

E quando a língua acaba elas não enchem a boca de nada, porque tem um calor por dentro das gengivas e na frente das pálpebras, e isso elas não podem esquecer de soprar pra dissipar.

As silenciosas do Itacorubi são as pessoas mais lindas do mundo, têm olhos de lua à noite, boca de fontana di trevi e braços de vento do sahara. Mas elas não aguentam mais, porque elas não são desse mundo... São lindas demais pra esse mundo.



:: Charlotte Sometimes 11:53 a.m. [+] ::
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:: quarta-feira, fevereiro 12, 2003 ::


fale baixou ou as crianças podem ouvir. o que vc quer? sexo? sexo não, eu recém pintei as unhas, vai manchar sua cueca. eu tiro a cueca com minhas próprias mãos. então vai manchar suas costas. foda-se minhas costas. não. por que não? porque não, tem hora que a gente não tá afim. não tá afim de sexo ou não tá afim de mim? de vc, de sexo, de sexo com vc. tem feito sexo com outros. ai, que saco, por que eu deveria mentir e salvar um casamento, me pergunto, então eu digo, tenho sim, tenho feito sexo com outra pessoa. uma pessoa só ou mais de uma? uma só. então me dói, porque se fosse genérico eu não tava ameaçado, como é um parceiro fixo vc já deve estar no mínimo apaixonada. estou. e agora|? eu é que te pergunto, me ajuda, e agora, o que que eu faço? transa comigo. não quero. agora. não quero. vem cá. pára, não seja bruto, já disse que não quero. mas eu não quero saber se vc quer, sua puta, eu quero e não é só o que vc quer que entra nessa casa. me solta. abre as pernas. me solta. calaboca. ME SOLTA. gozei. cretino. puta. vc gosta de uma puta, gozou em 4 segundos. gosto de vc. mas vc nunca gozou tão rápido comigo antes. todo homem tem a fantasia do impulso. evolução, sei, precisa desse impulso, ahã. vc gostou? de ser estuprada? é. gostei. vai deixar o outro? não, vou continuar com ele, tô apaixonada. as crianças estão ouvindo tudo, diz que vc vai deixá-lo e que vc me ama. ai que saco. eu tenho vontade de te matar. me mata. vai embora de casa agora. a casa é minha. e eu também sou seu. mas eu não sou só sua. o quanto vc é do outro? em que unidade de medida? do seu peso, 55kg. sou 30kg dele. eu só tenho 25kg? atualmente, sim, vc tem a desvantagem do hábito. (olhar silencioso dele pra ela, olhar silencioso dela pra ele). deitam, dormem e ela rola lágrimas na cama por toda essa mentira.


:: Charlotte Sometimes 3:53 a.m. [+] ::
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:: terça-feira, fevereiro 11, 2003 ::
As Três Marias

Tava eu sentadinha e comportada, absorta da vida como sempre ficava em fins de tarde portugueses, saindo do trabalho e indo pra casa, de bonde. Como é bom andar de bonde. Em Lisboa, a luz é amarela e o ar faz uma música que dá preguiça e sossego, uma música feita de um chiado de ferro no ferro, de ruas de paralelepípedo antigo, de xícaras de café se batendo o tempo inteiro. É uma felicidade das mais simples e perfeitas.

Aquele dia era verão, quase verão, era ameno e combinava com o amarelo do sol e a idade das pedras das casas. Sentada no bonde, eu vi o condutor parar no ponto, abrir a porta, alguém entrar, ele fechar a porta, e continuar. Eu sorria com a minha falta de outros desejos.

Na parte da frente, logo atrás do motorista, os bancos estavam ocupados por três senhoras, três velhas portuguesas, das de lenço na cabeça e tudo, nem sei como elas vivem tanto, aparentavam mais de noventa, e lá iam se chamando de Maria Qualquer Coisa, falando da vida. Diz a primeira, que parecia um pouco mais nova:

- Ó Maria, falaste-me outro dia que estava com a cabeça a partir de dor, como é então que melhoraste?

Ao que a Maria responde:

- Pois melhorei, sim senhora que melhorei. Mas sabes bem como é a idade, está sempre a pregar-nos peças, e não é que em seguida à dor de cabeça atacou-me logo a artrite. Olha lá os dedos, já nem posso tricotar, mal seguro as tampas das panelas, uma tristeza, mas que se há de fazer, não é? O importante é ser jovem à mente, porque é dela que vem a felicidade do corpo.

- Isso, dona Maria, tudo há de passar, hoje os médicos estão mais ensinados e os novos remédios dão a volta ao mundo em semanas, há de passar.

- Deus te ouça e te respeite. E tu, menina Maria, como andas de saúde? Andas bem?

- Ando como deus quer, não é, que na nossa idade já não é tão simples. A diabetes sempre sobe, já nem posso com meu pastel de nata, todo dia ao pequeno-almoço, mas deixa estar, que o importante é nunca desistir, que só morre quem se deixa, só definha quem quer, não é? E a comadre Maria – disse dirigindo-se à terceira velha – que fica aí tão caladinha, como é que anda?

- Hein?

- COMO ANDA A COMADRE MARIA, QUE ANDAVA SUMIDA, teve que gritar para a amiga meio surda.

- Bem, muito bem. Estava a convalescer, 3 meses no hospital.

- Mas por que, que houve?

- Osteoporose, comadre Maria, osteoporose. Estava eu a descer do autocarro quando caí à calçada e parti os ossos do tornozelo. E quem disse que aquilo colava de novo?

- Minha nossa senhora de Fátima, e agora?

- Agora já estou bem, que não sou velha de me abater com uns metacarpos partidos, a gente tem que seguir em frente, tocar a vida, que não é pra todos mas é pra ser vivida, é pra quem tem a mente jovem e nunca desiste. Se calhar vive-se até pra sempre.

- É verdade...

- Pois...

Neste momento, o bonde pára, abre suas portas, uma bengala entra no primeiro degrau, depois outra, e uma perna velha sobe, e outra tenta ir atrás, o condutor ajuda, puxa a velha com um braço, de fora alguém a empurra, a senhora curvada mal segura o corpo, mal empurra para cima, mal se aguenta e ainda tem que carregar duas bengalas, e com ajuda ela sobe, e vira-se e com a velocidade que as costas deixam e as pernas permitem, tão trêmula quanto ofegante, ela se senta. O condutor anda, chega ao outro ponto, o condutor pára, abre a porta e o processo recomeça. A velha apoia as bengalas e nelas tenta subir, e levanta aos tremeliques, com toda a atenção de mais dois passageiros que lhe ajudam pelo braço, e lhe seguram, e lhe descem pelos degraus e a deixam na calçada, em segurança, com um ar triste e incapaz e um pulmão esforçado, e a porta se fecha e o bonde sai.

Em silêncio, as três Marias olham para fora, depois para dentro, depois uma para a outra, e inevitavelmente comentam:

- Mas como deixam uma pessoa dessa idade ainda sair de casa?



:: Charlotte Sometimes 5:11 a.m. [+] ::
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e hoje eu acordei viva. mas viva mesmo, e não só isso que vocês estão pensando.




:: Charlotte Sometimes 4:45 a.m. [+] ::
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:: segunda-feira, fevereiro 10, 2003 ::


DE AGOSTO

Duas e dez e este senhor este senhor este encanamento esse que me desfaz senhora de mim, esse que me faz suspirar no sofá, que coisa é essa mulher de trinta suspirando no sofá, não senhor, não meu senhor, não tenho mais idade mas suspiro ainda, que fazer, que fazer senão suspirar?

E eu gostaria de um longo suspiro.



:: Charlotte Sometimes 1:00 p.m. [+] ::
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A mulher-galinha chega na padaria com a bunda grande e vestido da Angola, senta na mesa empertigada e pisca, pisca, pisca e pede uma salada qualquer. Deve ser entrada e depois da entrada vem prato principal sobremesa café porque mulher-galinha come refeição completa com água mineral com gás e pisca, pisca, pisca e depois pega a bolsa com as duas mãos juntas encolhidas na frente do corpo e vai pro caixa espera na fila olhando os doces envernizados do balcão com saliva nos olhos mas como ela já comeu um pudim qualquer, que é mais a cara da mulher-galinha ela só espera e olha ao redor e pisca.
Ontem à noite quando chegou na sua casa mofada, quadrada e com pequenas janelas basculantes de banheiro em todas as peças, a mulher-galinha sentiu cheiro de linóleo, viu roupinhas de liquidicador, relógio de parede com marca de loja, enfeites de porcelana falsa, sofás de courino marrom, a foto cinza-velho dos pais na parede e mais nada, uma coisa asséptica e vazia, lençóis que nunca perdem o vinco, mulheres que nunca perdem o vinco, a mulher galinha pensou nisso e ficou triste.
Mas como sempre, enxugou o rosto com lencinho de pano bordado e continuou.


:: Charlotte Sometimes 9:28 a.m. [+] ::
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e eu era o palhaço vestido de bailarina


:: Charlotte Sometimes 4:22 a.m. [+] ::
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cheap.HOTEL

Um desses quaisquer que chegam por aí, te oferecem pouco, te fazem baixar, te fazem abaixar, te fazem abrir a boca chupar e ainda dizer que gosta, hm, seu porco, você não vale nada nada nada, eu é que valho, eu sou é cara mas na outra moeda, na moeda de medir gente que fala quanto a gente custa pelo quanto de merda a gente pode suportar atravessando a vida e a cabeça e o dia e a noite sempre sempre.
Um desses quaisquer nem sabe o que tá pagando quando tira 15 da carteira reclamando ainda que tá caro, um desses brocharia se visse que paga coxinha café nívea papel higiênico modess detergente sopa de pacote pasta de dente perfume barato esmalte rosa.
Eu já vivi e vi vários desses em vários desses hotéis pequenos palácios lençóis carimbados persianas podres barulho da rua cama redonda e aquela marca de ferrugem na pia branca bem naquele lugar onde a torneira fica vazando.
Eles vão embora e o hotel sempre vai lembrar é de mim.
Eu sou linda.
Eu gosto de cisnes emplumados e pedras falsas, perolas escorrendo entre os dedos e meias arrastão, meus saltos agulha de fazer acupuntura no peito de homem de bigode, no meio dos pelos deles fascinados, o outro pé furando o colchão. Eu gosto de cerveja em copos pequenos, espelhos ovais e estatuetas, elásticos e rendas e um boá cor de rosa, fantasias de carnaval antigo e máscaras e cigarros baratos amarelando os dedos. Eu gosto e os homens também gostam e não é por isso que eu gosto, é porque eu nasci com esse gosto, eu deveria ter sido um hotel desses a vida inteira, eu deveria ter pessoas com luxos baratos suando sobre mim dia e noite seus prazeres tão importantes.



:: Charlotte Sometimes 4:20 a.m. [+] ::
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eu quero ser nada e quero ser tudo
eu quero ser o asfalto e o ar
e o céu independente da cor
eu quero ser o concreto entre as pedras do concreto
eu quero ser o chão e o céu
eu quero ser a fantasia dos pobres
e a imaginação passageira dos pobres
e a vida temporária dos que não têm vida
eu quero ser terra, grama, formiga e minhoca,
eu quero ser o álcool, a água, o solvente e o solvido
eu quero ser tudo que seja diluído
eu quero ser absorvida pelo mundo
e virar tudo e virar nada
eu quero ser deus.



:: Charlotte Sometimes 4:18 a.m. [+] ::
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:: sexta-feira, fevereiro 07, 2003 ::


- Você está linda.
- .
- Eugênia.
- Hm?
- Você está linda.
- Ah, obrigada.
- O prazer é meu.
- ,
- Nós devíamos sair mais.
- Sair?
- É. Dançar, beber uns copos, essas coisas que casais fazem.
- Antônio...
- Que?
- O que foi?
- Como, o que foi?
- O que você tem, porque comecou com esse papo de linda, sair, no meio do Big Brother ainda por cima?
- Eu nem percebi que tava passando big brother.
- Não?
- Não. Sabe por que?
- Por que?
- Tava olhando pra você, vendo como você é linda.
- .
- Tão séria. Eu gosto, mas é um pouco amedrontador.
- Você fez alguma coisa errada?
- Pela sua cara, fiz. Mas eu não consegui saber o que.
- Esse papo todo, Antonio, essa coisa irrompendo no meio do nada, do Big Brother, de linda e bailes e bebidas, você nunca fez isso antes e...
- Desculpe.
- E agora dispara em galan... desculpe o que, Antonio? Aiaiai, agora vem.
- Desculpe nunca ter feito isso antes, te chamar de linda no meio de um programa de TV qualquer.
- Você me traiu?
- Não.
- Você gastou dinheiro da poupança?
- Não.
- Quebrou algum sapo da minha coleção?
- Não.
- Então por que você está me chamando de linda, Antonio, que saco!
- Porque você está linda.
- Não me irrita Antônio, eu não tô brincando, eu vou chorar, olha... Eu tenho espelho. E meu rosto não é mais lindo há muito tempo.
- Pra mim, é.
- Eu tomo remédios para pressão, eu tirei um seio, eu não tenho os dentes de trás, meus braços têm pele para fazer mais uma perna e você me chamando de linda, Antonio?
- Não chora. Eu te amo.
- Raquel de Queiroz falou isso da velhice, que você não se apaixona mais.
- Eu não estou me apaixonando agora. Eu tô apaixonado há 47 anos.
- Antonio...
- Não chora. Ou, se for chorar mesmo, chora aqui, molha minha camisa.
- Por que isso hoje, um dia que não significa nada, que nada de diferente aconteceu, que eu tava distraída?
- Não sei, acho que foi a sua distração mesmo. Um alheamento tão completo, um abandono que eu vi o quanto você me pertence. E eu a você.
- Eu sou uma velha, eu tenho 85 anos.
- E eu 83. Tudo o que você envelheceu, eu envelheci também. Entao, como numa equação de matemática moderna, os equivalentes se anulam, pode passar um risco em cima. Por essa lógica, nós temos vinte e poucos anos. Pelo menos um para o outro.
- É bonito. É poético. Portanto não existe,
- Eu olho pra você e vejo uma mulher linda. E sinto muito amor por você.
- Amor?
- Sim. E paixão.
- Ainda?
- Ainda.
- Como no começo?
- Não. Mais completo.
- Com um calor no peito?
- Sim, um quente no peito.
- É angina.
- Eugênia, não faz assim. Isso sim é idade, não as marcas que você diz que vê no seu rosto.
- Desculpe.
- Vamos sair?
- Pra onde, antônio?
- Qualquer lugar, mas quero que você vá de vestido. E que todo mundo veja como minha mulher é linda.
- Só mais uma pergunta.
- Qual?
- Você está com medo da morte?
- Não.
- .
- Coloque um vestido, maquiagem, perfume, vamos sair.
- Você é lindo.
- Eu te amo.
- Eu te amo.





:: Charlotte Sometimes 12:47 p.m. [+] ::
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Aquele ali senta num café parisiense, pede um vinho branco suave, uma salada de paladar sutil, lê um caderno de cultura, bebe água perrier, paga com moedas e sai caminhando devagar.
Depois vai trabalhar numa imobiliária, cospe o gosto ruim que às vezes sente na boca, cospe no cesto de papéis, diz pra secretária que não passe ligações da sua mulher e, no fim da tarde, em lugar do happy hour, faz sexo anal com a adolescente da papelaria num hotel barato, sem nem ao menos desarrumar a cama.



:: Charlotte Sometimes 12:46 p.m. [+] ::
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(NA FAUBURG DE ST HONORÉ, UMAS 14H)

Uma senhora azul turquesa que usa sapatos dourados é porque viveu todas as folies da rive gauche há 40 anos.
Hoje não dá mais, pena, e em vez de pedir dinheiro na rua ela grita com as pessoas: tu n’as pas un franc!




:: Charlotte Sometimes 12:45 p.m. [+] ::
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LES SCANDALEUSES, PARIS

Antes de mim uma pessoa, uma mulher, uma mulher de cabelos pretos, lisos, compridos e cheia de dúvidas sentou aqui neste sofá, pediu um copo de vinho e ficou olhando para fora, porque não tinha mais nenhuma esperança dentro. Por dentro.
Então alguém, uma mulher, uma mulher de cabelos castanhos pelo ombro e ainda cega para as dores que vêm das dúvidas, sentou ao lado.
E da sua cegueira saiu uma fala franca, uma fala que virou uma conversa honesta e interessada, sem as impurezas da experiência, só as do vinho, do vinho das duas, do vinho que tinha gosto de novo e da boca uma da outra.
Isso foi um beijo, um beijo novo, morno e contaminado de algo que nem elas sabiam que poderia acontecer.
Aqui, há muito tempo atrás, duas mulheres que não eram iguais encontraram sei lá o que na boca, no vinho, uma na outra, que não as deixa se separar até agora.
Mas agora elas estão em algum outro lugar sagrado.



:: Charlotte Sometimes 12:44 p.m. [+] ::
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eu tenho certeza de que estou dormindo. chove la fora e chove la fora e chove la fora e eu vou sair daqui mais tarde pretendendo conseguir permanecer alerta e depois dormir porque dormir é perda de tempo necessária ao limite físico em que me encontro.

cigarro café chocolate coca-cola celular cd continhos inspirados em segundos e minutos e horas do dia de hoje.

não há mágica nisso, é só contar as coisas como se elas fossem importantes. daí elas ficam.


:: Charlotte Sometimes 11:11 a.m. [+] ::
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40 voltas embaixo da minha própria mesa de trabalho indo e voltando indo e voltando indo e fumando mas que diabos é isso que pode fazer isso com uma pessoa tão cêntrica eu mesma perguntei e eu mesma respondi é isso mesmo o que eu tava procurando, essas 3 coisas
deus
paz
e rodar por baixo da mesa
então o que eu tenho tive vou ter é uma paixão que depende de mim
de você
de mim
de você
de mim
de você
de uns 4 cigarros
de umas identificações
de umas conversas francas e fluidas
da direção dos olhos
mesmo fechados.
é o prazer de conhecer e sem enumerar mais motivos a vontade que eu tenho é de fazer listas e mais listas de todos os pequeninos objetos coisas caracterísitcas itens substantivos adjetivos que me vem sido apresentados por você que fuma
galaxy
e embalada em rolinhos de fumaça meio azul e um sorriso incontrolado eu enrolo e giro e torço e fecho os olhos arrepio de lembrar de beijenlevo e outras coisas muito boas mas até muito mais importantes do que boas que deixam um eletrodo aqui dentro, entre as costelas o coração o pulmão e outros órgãos, lugar indefinido dando espasmo de uma coisa sem nome - mesmo que a gente dê um, o que a gente vai sentindo muda tanto que nunca vai obedecer nome - mas que é bom e bom e bom e bom e fim.



:: Charlotte Sometimes 9:59 a.m. [+] ::
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chove.

ainda bem que eu não tenho guarda-chuva.

ou eu teria desculpas.

e mais nada de importante.


:: Charlotte Sometimes 9:59 a.m. [+] ::
...


hm

eu quero é dizer letras do coldplay.



:: Charlotte Sometimes 9:57 a.m. [+] ::
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de 42 fileiras de lâmpadas fluorescente chovem pequenas partículas douradas luminosas que absorvidas pela pele viram pensamentos, então nem adianta tenter me esquecer me concentrar me enriquecer profissionalmente enquanto o que vive hoje agora e por várias horas consecutivas de tempos dos últimos tempos na minha cabeça mente cérebro e também por baixo dos pelos do braço e under my skin, o que atualmente circula por mim,
é sexo.


:: Charlotte Sometimes 9:42 a.m. [+] ::
...
uma sala ignorada fechada e vazia em que a liberdade é infinita.



:: Charlotte Sometimes 6:01 a.m. [+] ::
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uma experiência nova essa de blog e eu aviso a ninguém que vai ler isso que isso não pretende ter pontos nem ortografia nem leitores, é exercício de por texto em qualquer lugar e ler depois deixar guardado voltar a ver e entender mas que diabo está acontecendo aconteceu mesmo e é pra isso que eu, pronome eu, a cêntrica, eu escrevo.

esse lugar aqui azul e preto é um segredo.

eu adoro azul e preto.

tenho um sono feliz de noites muito pouco imaginadas muito esperadas e eu acho que merecidas porque chega uma hora na vida que a paz vai chegando forçada em alguns lugares e sua naturalidade vai ficando esporádica.

bem-vindo ninguém ao nada.



:: Charlotte Sometimes 6:00 a.m. [+] ::
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:: quarta-feira, fevereiro 05, 2003 ::


não sou a elisabeth bishop.



:: Charlotte Sometimes 5:39 a.m. [+] ::
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