Ela ajudava os pobres que encontrava pela rua, andava de metrô e aguava sempre suas muitas plantas. Ela vestia saias abaixo do joelho e cores parecidas, levava bolsa preta à tiracolo, sempre a mesma, com carteira, celular, baton cor de boca, agendinha telefônica, um absorvente preventivo, uns papeizinhos, talão de cheques, chave da casa, espelhinho e pinça.
Comeu pão no café da manhã, pão com café com leite. Mas em lugar de ir pro metrô voltou pra casa com uma cara de Isabelle Hupert e largou metodicamente a bolsa e o casaco no sofá da sala, sem amassar. Queria fazer pequenos cortes nos braços e ver como sangrava, gente sempre sangra, mas ela tinha impressão que não. Que ficaria um sulco meio roxo, com cara de gelado, e seco, meio desbeiçado de carne exposta.
Não ia ter coragem, sabia, é o tipo de dor que a maioria das pessoas só suporta se vier de alguém a inciativa, quando é dá gente parece forte demais, a gente pára, a mão é que pára, não é nem a gente mesmo.
Então pensou em esfaquear o vizinho, que não teria dorzinha nenhuma paralisando seus músculos, não havia impedimento físico. É, esfaquear o vizinho, nenhum impedimento, assim tudo seria mais fácil e tudo ficaria bem mas visível, menos invisível, sei lá, algo de importante precisava mesmo ser feito.
E por fora uma fonte calma. E por dentro mil cavalos de corrida. E por fora uma fonte calma. E por dentro formigas sem antena. E por fora uma fonte calma. E por dentro uma vontade de pular por qualquer janela sem nem abrir a vidraça, que desse caminho sempre sobraria uma marca, a forma da queda, o contorno da espera daquele último vento na cara. E por fora uma fonte calma. E por dentro o oitavo passageiro. E por fora uma fonte calma. E por dentro um jato de água gelada no Carandiru. E por fora uma fonte calma, praticamente um anjinho fazendo xixi.
no meio da pista de dança de um porão masmorra que tocava rock e as pessoas fumavam e bebiam vodcas baratas, perguntei para Virgínia se ela gostaria de ter vivido tudo isso. apontei os adolescentes magros e suados, feios, lindos e amigos de todo mundo, reencarnações de todos os escritores de todas as épocas. perguntei se ela gostaria de ter vivido no nosso tempo, que ela então seria livre pra poder viver tudo isso. perguntei se ela gostaria de ter vivido tudo isso. ela respondeu que não.