E nem o ar se move quando não falamos. É a serenidade de depois de tudo quando se está na cama sem nada em volta a não ser um breve diálogo de calma e de vozes baixas. Sobre qualquer coisa, breves vibrações de voz, lentas esperas e compreensões, a entrega mais ao momento do que ao outro, a entrega da alma, o escorregar leve e oleoso do que existe dentro da gente de vida. A vida inteira é o nome disso, a vida inteira sendo uma cena, a vida inteira dialoga lentamente na imobilidade com as janelas escancaradas os lençois espalhados os braços abertos as costas dispersas os olhos no nada a gota de suor suspensa no rosto como se fosse uma lágrima de felicidade.
Mas nem existe movimento suficiente naquilo pra ganhar nome felicidade, é só paz e plenitude e imaginar como seria um coração atravessando o outro.
Uma pele encosta na outra e se dorme.
Antes de tudo eram as borboletas amarelas. E eu, daltônica, que quer dizer um tipo de cegueira que quer dizer depressão como tudo o que é inventado, levanto os olhos olho paisagem e não me procuro nela, achando que ela não me tem, e não compreendo que natureza sou eu e concentro foco estudo devoro com órbitas ávidas pupilas abertas pálpebras escancaradas boca salivando toda aberta engolindo mundo engolindo mundo engolindo mundo que não é gente.
Mas...
Mas eu tenho pés de chumbo e estômago de digerir gente pessoas e corpo de esfregar peles e sexo de enforcar sexos e pernas de amarrar e braços de dar nós e laços de marinheiro e sempre então me esqueço das borboletas amarelas, que não há coisa mais amorosa na viduniverso que os desenhos nunca iguais, nunca diferentes, nem nada tão indiferente quanto os desenhos das asas das borboletas amarelas, sendo eu também uma delas.
O resto não tem importância.