(Então pensou em esfaquear o vizinho, que não teria dorzinha nenhuma paralisando seus músculos, não havia impedimento físico. É, esfaquear o vizinho, nenhum impedimento, assim tudo seria mais fácil e tudo ficaria bem mas visível, menos invisível, sei lá, algo de importante precisava mesmo ser feito.Pegou uma faca, uma xícara e foi lá pedir açúcar.O que aconteceu depois?)
Bateu na porta com leveza, ainda não tendo decidido o que faria depois. Não sabia bem se esperava que o vizinho abrisse ou não. Não sabia bem se deveria esperar ou não que ele tivesse tempo de vestir algo e abrisse a porta, que terminasse de secar-se e abrisse a porta, engolisse o último gole de café por cima do último pedaço de pão, desligasse o telefone, escovasse os dentes, terminasse o capítulo, gozasse, calçasse os chinelos e abrisse a porta. Mentalmente ela dava as costas e descia correndo pelas escadas antes de ser vista. Mas na verdade ficou ali parada, o corpo mais imóvel do que ela desejava, só parada, pensando em todas as alternativas que tinha e esperando que alguma força superior, insight, iluminação, destino, tomasse uma decisão por ela.
Alguém tomou, o vizinho abriu a porta.
Minuciosamente falando, ele estava vestindo calça de sarja, calçado esportivo, camisa branca, cabelos levemente compridos, cor de mel, olhos amáveis, cor de mel, sem nada pra se defender, e secava as mãos num pano de prato por estar picando tomates para preparar uma refeição tão leve quanto ele, uma pasta qualquer com pouca gordura.
Ela nem pensou. Cravou a faca na barriga branca dele. Um homem mais estudado do que exercitado, porque embora tenha se revelado mais difícil do que ela imaginava enfiar uma faca numa barriga, aquele abdome não era nenhum modelo de resistência. O primeiro impacto era como rasgar um tecido, um pano, depois a lâmina entrava fácil, mole. Como aquelas salsichas que se vende na europa, sabe, que estalam na boca?
O vizinho obviamente não entendeu nada, com razão, a cena era insólita mesmo. Ele fora atacado por sua vizinha, concluiu mais de 30 segundos depois. E nada fazia sentido, afinal ela era uma vizinha normal. Vivia num silêncio razoável, não fazia tanto barulho pra se considerar pessoa louca e de má índole, nem tão pouco como os depressivos, psicopatas, esquizofrênicos e desajustados da solidão. Não fazia sentido, ela usava roupas de malha, jeans e camisetas, ao contrários dos tailleurs e coques das mulheres reprimidas que têm dentro de si uma tormenta represada de sexo e violência. E também não exibia tatuagens do demônio, piercings masoquistas, língua bifurcada, implantes de silicone nos braços, chifres de teflon por baixo da pele. Nada de estranho, nem por cima da pele. Ela não parecia nem de longe, nem de cima, nem de lugar algum, mesmo de dentro da mente, uma pessoa que mata outra. Não parecia capaz nem propensa, nem por ser tão má, nem por ser tão boa. Não fazia o menor sentido.